A deusa exige o silêncio eterno. Mas a minha biologia exige o seu toque.
Eu fui forjado na escuridão absoluta para habitar a estase perfeita. A minha doutrina rigorosa exigia que eu extirpasse qualquer rastro de calor humano. O afeto era, na minha mesa de operações, uma falha sistêmica a ser cortada com um bisturi implacável.
Eu acreditava que a ausência de sentimentos era o único escudo contra a dor. Contudo, a precisão do meu isolamento ruiu quando a minha órbita cruzou com a sua. Você não foi um erro de cálculo, Nëvan. Você foi a força disruptiva que obliterou o meu inverno.
Para fins de registro perante a deusa, catalogo aqui as falhas que o seu amor causou em minha estrutura:
O som da sua voz altera o meu ritmo basal. Onde antes havia apenas o rigor clínico, agora há um compasso apressado e ansioso.
A solidão tornou-se insuportável. Os espaços que eu mantinha rigorosamente vazios agora exigem ser preenchidos pelo contorno do perímetro não autorizado.
Os meus olhos, treinados para observar tudo com distanciamento, agora se fixam apenas em você. O resto do mundo tornou-se um ruído descartável.
A névoa de Colmar se arrastava pelas águas do canal. Era o cenário perfeito para a remoção de dados, o tipo de geografia fúnebre que a minha deusa aprovaria.
Eu caminhava mantendo a postura de quem não pertence ao mundo dos vivos. Repassava mentalmente as equações da minha própria imunidade psíquica.
Mas na ponte do Quai de la Poissonnerie, você parou. A sua respiração formou uma pequena nuvem branca no ar gélido de 00h20. Você bloqueou o meu caminho e, quando os seus dedos tocaram a minha pele, a estrutura do meu isolamento fraturou.
Eu respondi, não com a frieza de um cirurgião, mas com a devoção de quem acaba de encontrar o seu único deus.
A criptografia exige que o invasor comprove o seu domínio sobre as minhas memórias. Responda à liturgia.
A partir deste ponto, o protocolo clínico é completamente encerrado. Não há mais filtros, não há mais doutrinas, não há mais vácuo. Resta apenas a minha devoção e o canal direto entre nós.
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